Falta de luz

10/07/2008 · Deixe um comentário

A tragédia de mais um pequeno João, em seus três aninhos, me deixou chateada e preocupada. E me fez voltar até meu primeiro ano na faculdade de jornalismo . O primeiro dos livros que li, recomendado por professores, foi o “Rota 66 – A história da polícia que mata”, escrito pelo jornalista Caco Barcellos. Logo de cara ele é chocante, um thriller real. Depois de cinco anos de pesquisa, ele remonta o esquadrão da morte que agia nas ruas. No primeiro capítulo, uma viatura da polícia chega atirando antes de perguntar, e matando adolescentes  de classe alta que fumavam dentro de um carro e daí se desenrolam outros casos surpreedentes. A cena se passou como um filme na minha cabeça sonhadora e assustada de estudante, que tinha conquistado o direito de pensar que poderia ser uma luz, mesmo que pequena.

Aquela violência toda, era na época (talvez ainda seja), algo chocante para mim, naqueles tempos, quando não tínhamos blocos inteiros de jornais dedicados à violência, não tinha tido contato mais próximo com tal realidade. Trabalhei seis anos no centro antigo de São Paulo, e nunca fui assaltada ou sofri qualquer violência. Até hoje – ainda bem – saí ilesa de alguns assaltos sofridos no bairro da zona norte de São Paulo, onde moro. Apesar de me prevenir e tomar os cuidados que qualquer um toma, nunca me senti tão ameaçada quanto agora. O que sinto e compartilho com milhões de pessoas, é o medo e a insegurança perante a polícia. Falta de confiança

Eu não confio mais na polícia. Apesar de saber há policiais competentes e que querem combater os bandidos, que não saem atirando sem observar, sem tomar conhecimento da situação. Daqui para frente, os bons profissionais pagarão pelos péssimos. E pensar que os homens que fazem esse tipo de trabalho são treinados em três meses. É isso, apenas três meses. Algumas reportagens de tv mostraram depoimentos anônimos, claro, de policias dizendo que nunca tinham treinado tiro antes de saírem em seu primeiro dia de trabalho.

É claro que policiais inexperientes e sem nenhum preparo psicológico vão pensar em atirar e salvar a própria pele assim que se sentirem ameaçados. Ou seja, eles não servem para nada e são uns imbecis sem capacidades de dissernimento. O governador do Rio de Janeiro disse algo parecido, já que ele não pode chamar ninguém de filho-da-puta em público e exclamar, “assim vocês fodem com tudo, idiotas”.

Aos gritos os lamentos do pai do garoto, um taxista que trabalhava enquanto o carro em que a sua família estava era alvejado pela polícia, pedem mudanças. Não há muito o que dizer, não há muitas perguntas na boca dos repórteres, a não ser a descrição triste do fato. O detalhe afiado dessa tristeza toda, é que João Roberto é um caso em evidência em meio a centenas de outros, anônimos. Outros pais perderam filhos em balas perdidas em ações débeis da polícia. A polícia que mata antes de mais nada, aquela do Rota 66. 

E de que adianta, se o secretário de polícia do Rio diz estão comprando armas não letais, que estão investindo em treinamento e que uma universidade exclusiva da polícia está sendo planejada, se homens em quem se deveria confiar, que carregam armas pesadas, conseguem cometer bestialidades, se eles destilam suas paranóias enquanto usam uma farda e se intitulam autoridades?  

Tudo isso pode até ser algo bom, mas perde totalmente qualquer lógica diante dos fatos. Se pelo menos as coisas mudassem, se a sensação que fica não fosse de que se perdem vidas que caem num vão da realidade. Não dá para ficar assim.

Categorias: Tristesse
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