Foi numa tarde calorenta de setembro, estávamos eu e Gabi, Gabi e eu, falando de coisas muito úteis e relevantes, a ponto de corroborarem o efeito estufa e estalarem ovos sobre nossas cabeças. Felizes, e sem noção, ríamos dos seres humanos e de momentos como aqueles, assim, tão raros, e de angústia, em tempos de ingressos escassos para o show da Madonna. Enfim, banalidades, meu bem.
Foi então, que subitamente, uma melancolia, uma breve recordação nos tomou quando avistamos alguns góticos de preto (hipérbole?), caminhando e derretendo pelas ruas, impávidos dentro de coturnos a cozinhar seus pés, ou…ah, então. A Gabi sussurrou enquanto ria descontroladamente, ”E eu que fui gótica?”
Pois é, em sua adolescência ela e alguns outros companheiros compartilharam de roupas pretas e passearam por cemitérios, tomaram muito drink de Ajax no Madame Satã (saudades), e o modelito de “sair” era uma linda sainha de tule preto (acho fofo).
Eu só descobri o Madame alguns séculos depois, e quem me levou lá foi a Gabi. Adorei, e nos anos seguintes, tomei alguns porres e dancei com a parece como reza a tradição. Mas, bah, em meio a tudo isso, e que não é pouco, nos pusemos a pensar como vive na real, na sua vida diária, comum, cotidiana um gótico de pedigree, alguns, mais trevosos, de dentes de vampiros de verdade, ele usa uniforme? se rende ao pragmatismo capitalista? toma sangue ou vinho? almoça à luz do dia? come legumes? Essas questões que tanto atormentam os simples transeuntes mortais que passam pela metrópole.
Foi então, que pensei, como seria um gótico de carteirinha trampando, em lugar qualquer, popular, por exemplo, nas Casas Bahia? Como ele conseguiria oferecer de forma profética, e profunda, a geladeira da promoção – “Sssssççççenhor, veja eççsssa ggeladeira? ppfffrecinho bom demaisssss, e você ainda ganha uma frigideira da paaanneexxxçççç! Çççççento e doze vezzessssççç… ”
Não deve ser fácil ostentar os belos caninos super desenvolvidos da raça (adoro!) no dia-a-dia, e ainda ter que vestir um uniforme branco! O ponto é que rimos a valer, imaginando. E então, sentadas no banco de idosos (coisa feia!), pensamos essas frivolidades, enquanto a catraca girava sem parar.
